Anitta encadeia com precisão as 17 músicas de 'Equilibrium II', álbum em que nada soa fora do lugar André Nicolau / Divulgação ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Equilibrium II Artista: Anitta Cotação: ★ ★ ★ ★ ★ ♬ Com “Equilibrium II”, Anitta atinge o ponto de coesão que buscara no primeiro volume lançado em abril. Posto no mundo na noite de quinta-feira, 23 de julho, o álbum alinha 17 faixas que se encadeiam com precisão em gravações produzidas com mistura azeitada de sons orgânicos e eletrônicos. Caso raro no mercado fonográfico em que a sequência de um projeto soa mais bem acabada do que a parte inicial, o álbum “Equilibrium II” abre e fecha com funks, como a lembrar a origem da menina carioca de Honório Gurgel que já irrompeu poderosa em 2013 no universo do tamborzão. Só que, entre um funk e outro, a artista celebra os tambores do Brasil, abarcando os tambores do samba e os tambores dos terreiros que ecoam da Bahia ancestral para todo o país. “Você já sabe quem chegou / Só pelo toque do tambor”, alerta Anitta em versos de "Você já sabe", mix de funk e maculelê que abre “Equilibrium II” com produção do trio Los Brasileros. “Nada na mata me mata”, joga com as palavras a cantora em “Oke”, funk que fecha o álbum, pondo a floresta na pista com o rap indígena do grupo sul mato-grossense Brô MC’s e da MC pauista Katú Mirim. Pelo discurso altivo dessas duas faixas, fica evidente que Anitta soa coerente em “Equilibrium II” com a trajetória da funkeira que contribuiu decisivamente para dar voz ativa às mulheres nos bailes. Só que a funkeira se espiritualizou ao longo de 13 anos de exposição midiática e buscou na fé, sobretudo na crença das religiões de matriz afro-brasileira, uma força e uma energia positiva que irradiam ao longo de “Equilibrium II”. Com narrativa bem estruturada, o álbum reflete os passos de Anitta nessa caminhada pessoal em busca de paz e saúde mental. O que explica uma faixa em feitio de oração como “Contemplação”, que soa quase como um mantra, inclusive por juntar a cantora com o grupo Ofá, formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, polo de ancestralidade e resistência de Salvador (BA). É da Bahia que vem o ijexá, gênero que dita o ritmo de três faixas alocadas em sequência no álbum (a propósito, a disposição das faixas é perfeita e valoriza a narrativa de “Equilibrium II”). Todos os três ijexás foram embalados com alta carga de espiritualidade. “Sem pressa” junta Anitta com MC Tha em tema que prega um ritmo mais calmo de vida. Introduzido com sample de “Plantadeira”, tema de Minuska Lima, “Deus mãe” marca o reencontro de Anitta com King Saints – rapper que também participa de Equilibrium I” – para louvar a energia feminina que gera a vida. E vem então “Ogum me rodeia”, faixa que seduzirá o universo da MPB por trazer a voz sobrenatural de Maria Bethânia em conexão que soa tão inesperada quanto harmoniosa. A intérprete recita versos (“Sua vitória é minha casa / Nela, meu corpo não conhece ferida”) que saúdam a força de Ogum e reforçam a soberania da artista, já vista como entidade pelo magnetismo que emana no palco. O canto em si do ijexá é dividido por Anitta com Letícia Fialho. Antes da tríade de ijexás, Anitta se espraia nos lençóis do reggae, emanando boas vibrações com Alexandre Carlo na vibe praiana de “Abre caminho” e incursionando pelo universo do lovers rock em “Tudo isso”, reggae que traz Alice Caymmi no time de compositores. Ainda dentro das fronteiras musicais da Jamaica, mas em outra praia, “Equilibrium II” evoca toques de ragga e dancehall na cadência de “Sal grosso”, funk turbinado com o rap de Kbrum. Em outra latitude, Anitta cai no forró em duas faixas alocadas lado a lado na sequência do álbum. A cantora xaxa com Alceu Valença na base house de “Não me cutuca”, músicas de versos arretados como “É sempre bom lembrar que não é bom mexer com a maluca / Que eu tô quieta no meu canto, então não me cutuca”. Também aliciante, “Eu não sou santa” amacia o canto de Anitta em faixa com a voz e a sanfona de Mestrinho. “Eu não sou santa, mas sei que a santa me adora”, canta Anitta, marota. Em disco regido pelos tambores, o samba marca natural presença. “Feitiço” é um samba de caboclo com toque pop que junta Anitta com Mart’nália, a sambista mais pop do Brasil. Também na linha do samba pop, “Ponta do pé” mira um salão de gafieira enquanto “Respira” – faixa que tem em “Equilibrium II” a função exercida por “Pinterest” em “Equilibrium I” – evolui com certa latinidade em clima de bossa nova, atmosfera perceptível, em menor proporção, em “Divino sexual”, música menos imponente no conjunto das 17 faixas, mas ainda assim bem encaixada na narrativa do álbum. Porque sexo é vida. E gera vida. Evocando Carmen Miranda (1909 – 1955), Anitta cita a marchinha “Taí” (Joubert de Carvalho, 1930) em “Pra você gostar de mim”, sambossa de ares melancólicos, em movimento sagaz porque, encobertos pelo manto de alegria foliã, os versos da marchinha “Taí” propagavam sofrência aguda. Completando o repertório de “Equilibrium II”, Anitta entra no tom feliz da canção “Azul” em versão em espanhol que tangencia o formato de tradução literal da letra de Djavan apresentada ao Brasil em 1982 na voz cristalina de Gal Costa (1945 – 2022). Vertendo Djavan para a descontração dos barzinhos latinos, “Azul” se afina na vibe positivista do álbum. Enfim, em essência musicalmente parecido com o formato do primeiro volume, o álbum “Equilibrium II” cresce em relação ao antecessor pela coesão da narrativa. Mesmo que haja uma ou outra música menos sedutora no conjunto da obra, nada soa fora de lugar em “Equilibrium II”. Capa do álbum 'Equilibrium II', de Anitta André Nicolau / Divulgação