Por Daniel Pisano* A inteligência artificial já aumenta a produtividade de profissionais experientes. Mas a ruptura mais urgente no mercado de trabalho talvez não apareça nas demissões. Ela está na redução das oportunidades para quem ainda tenta conquistar o primeiro emprego e adquirir experiência. No Brasil, o desemprego encerrou o quarto trimestre de 2025 em quase 5%. Entre jovens de 18 a 24 anos, porém, chegava a 11,4%, segundo o IBGE. O dado não prova um efeito da IA, mas mostra que entrar no mercado continua muito mais difícil do que permanecer nele. Nos Estados Unidos, já existem indícios mais diretos. Um estudo do Census Bureau identificou queda de 12% no emprego de trabalhadores de 22 a 24 anos nos setores mais expostos à IA nos dez trimestres posteriores ao lançamento do ChatGPT. A redução das contratações foi o principal motivo. Isso não significa que toda retração seja causada pela tecnologia. A OCDE alerta que as evidências ainda são limitadas e que o cenário econômico e as mudanças na demanda por habilidades também pesam. Ainda assim, a combinação entre produtividade maior e contratações menores merece atenção agora, não em 2030. Quando uma equipe consegue produzir mais dentro da mesma jornada, surge um incentivo econômico evidente: antes de abrir uma vaga, a empresa tenta absorver a demanda com os funcionários atuais. O ganho imediato aparece na planilha. O custo de longo prazo, não. Quem formará os profissionais do futuro? Trabalhos iniciais nunca serviram apenas para executar tarefas repetitivas. É neles que profissionais aprendem a interpretar contexto, reconhecer erros, lidar com clientes e tomar decisões. Quando essas funções são entregues integralmente à tecnologia, desaparece parte do ambiente que transforma um iniciante em alguém experiente. Para um país, o efeito pode durar anos. A Organização Internacional do Trabalho aponta que entrar no mercado em condições adversas pode provocar perdas salariais de 10% a 15% por uma década ou mais. Em larga escala, isso significa menor arrecadação, menos consumo, perda de produtividade e aumento da desigualdade. A estimativa não é exclusiva da IA, mas dimensiona o custo de bloquear o início das carreiras. As próprias empresas também correm risco. Ao reduzir a contratação de jovens e concentrar a busca em profissionais experientes, elas enfraquecem a formação dos especialistas e líderes de amanhã. Com menos oportunidades para quem está começando, a falta de mão de obra qualificada tende a se agravar no futuro. Preparar-se para essa ruptura não significa conservar funções obsoletas. Significa automatizar tarefas sem eliminar o aprendizado. Estágios, programas de aprendizagem, rotação e mentoria precisam ser redesenhados para que iniciantes usem a IA, revisem seus resultados e desenvolvam julgamento próprio. Empresas também devem acompanhar quantos jovens contratam, como eles avançam e quais competências deixam de ser formadas quando uma atividade é automatizada. Universidades e governos precisam aproximar formação e trabalho real, com experiências práticas e atualização mais rápida dos currículos. O debate não deveria se limitar a quantos empregos a IA criará ou destruirá. A questão mais concreta é saber se ainda haverá um primeiro degrau para uma nova geração subir. O custo de removê-lo pode não aparecer no próximo balanço, mas será pago pelas empresas e pelo país durante muitos anos. E não só quem está em início de carreira é impactado. Um estudo do Center for Retirement Research (CRR), do Boston College, mostra que a IA está encurtando carreiras de profissionais experientes e que ganham bem. {{WHATSAPP_CHANNEL}}
Por Daniel Pisano* A intelig ncia artificial j aumenta a produtividade de profissionais experientes. Mas a ruptura mais urgente no mercado de trabalho talvez n o apare a nas demiss es. Ela est na redu o das oportunidades para quem ainda tenta conquistar o primeiro emprego e adquirir experi ncia. No Brasil, o desemprego encerrou o quarto trimestre de 2025 em quase 5%. Entre jovens de 18 a 24 anos, por m, chegava a 11,4%, segundo o IBGE. O dado n o prova um efeito da IA, mas mostra que entrar no mercado continua muito mais dif cil do que permanecer nele. Nos Estados Unidos, j existem ind cios mais diretos. Um estudo do Census Bureau identificou queda de 12% no emprego de trabalhadores de 22 a 24 anos nos setores mais expostos IA nos dez trimestres posteriores ao lan amento do ChatGPT. A redu o das contrata es foi o principal motivo. Isso n o significa que toda retra o seja causada pela tecnologia. A OCDE alerta que as evid ncias ainda s o limitadas e que o cen rio econ mico e as mudan as na demanda por habilidades tamb m pesam. Ainda assim, a combina o entre produtividade maior e contrata es menores merece aten o agora, n o em 2030. Quando uma equipe consegue produzir mais dentro da mesma jornada, surge um incentivo econ mico evidente: antes de abrir uma vaga, a empresa tenta absorver a demanda com os funcion rios atuais. O ganho imediato aparece na planilha. O custo de longo prazo, n o. Quem formar os profissionais do futuro? Trabalhos iniciais nunca serviram apenas para executar tarefas repetitivas. neles que profissionais aprendem a interpretar contexto, reconhecer erros, lidar com clientes e tomar decis es. Quando essas fun es s o entregues integralmente tecnologia, desaparece parte do ambiente que transforma um iniciante em algu m experiente. Para um pa s, o efeito pode durar anos. A Organiza o Internacional do Trabalho aponta que entrar no mercado em condi es adversas pode provocar perdas salariais de 10% a 15% por uma d cada ou mais. Em larga escala, isso significa menor arrecada o, menos consumo, perda de produtividade e aumento da desigualdade. A estimativa n o exclusiva da IA, mas dimensiona o custo de bloquear o in cio das carreiras. As pr prias empresas tamb m correm risco. Ao reduzir a contrata o de jovens e concentrar a busca em profissionais experientes, elas enfraquecem a forma o dos especialistas e l deres de amanh . Com menos oportunidades para quem est come ando, a falta de m o de obra qualificada tende a se agravar no futuro. Preparar-se para essa ruptura n o significa conservar fun es obsoletas. Significa automatizar tarefas sem eliminar o aprendizado. Est gios, programas de aprendizagem, rota o e mentoria precisam ser redesenhados para que iniciantes usem a IA, revisem seus resultados e desenvolvam julgamento pr prio. Empresas tamb m devem acompanhar quantos jovens contratam, como eles avan am e quais compet ncias deixam de ser formadas quando uma atividade automatizada. Universidades e governos precisam aproximar forma o e trabalho real, com experi ncias pr ticas e atualiza o mais r pida dos curr culos. O debate n o deveria se limitar a quantos empregos a IA criar ou destruir . A quest o mais concreta saber se ainda haver um primeiro degrau para uma nova gera o subir. O custo de remov -lo pode n o aparecer no pr ximo balan o, mas ser pago pelas empresas e pelo pa s durante muitos anos. E n o s quem est em in cio de carreira impactado. Um estudo do Center for Retirement Research (CRR), do Boston College, mostra que a IA est encurtando carreiras de profissionais experientes e que ganham bem. {{WHATSAPP_CHANNEL}}