Nascida na Alemanha Oriental e ex-militante comunista, Wagenknecht, de 57 anos, é conhecida por mesclar bandeiras econômicas típicas da esquerda com posições mais conservadoras em temas sociais IPON/IMAGO via DW Um partido nanico populista de esquerda pode ajudar a sigla de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) a conquistar um feito inédito na história do país desde a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial: trazer uma sigla de ultradireita de volta ao comando de um governo. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Mais precisamente, de um governo estadual: o da Saxônia-Anhalt, no Leste alemão, onde a AfD tem aparecido nas pesquisas recentes muito à frente dos demais concorrentes, com 41% e 43% das intenções de voto. O diretório estadual da sigla ali é classificado pelas autoridades como comprovadamente extremista. A poucas semanas da eleição estadual, marcada para 6 de setembro, a ex-deputada de esquerda e fundadora da Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), Sahra Wagenknecht, anunciou que o partido estaria disposto a abrir caminho para que um político da AfD assuma o posto de governador. "Nosso objetivo eleitoral é tirar do cargo o atual governador", declarou Wagenknecht na quarta-feira (12) ao tabloide Bild. "E substituí-lo por um governador suprapartidário, que governe com um gabinete técnico e maiorias variáveis [...], também com a AfD." Do contrário, Wagenknecht afirma que o BSW se absteria da eleição para governador — que, na Alemanha parlamentarista, é decidida pelos deputados. A manobra permitiria à AfD emplacar seu governador por maioria simples dos votos, mesmo sem apoio de outros partidos. Nascida na Alemanha Oriental e antiga filiada do partido comunista que liderou o regime, Wagenknecht tem 57 anos. Ela é conhecida por mesclar bandeiras econômicas típicas da esquerda com posições mais conservadoras em temas sociais, como oposição à imigração irregular e ao "identitarismo" ou "wokismo". Além disso, Wagenknecht é crítica à guerra de Israel na Faixa de Gaza e abertamente simpática à Rússia de Vladimir Putin, apesar da invasão à Ucrânia. Por anos, a ex-deputada e outrora comunista convicta foi uma das políticas mais proeminentes do partido A Esquerda, que ela abandonou em 2023 para fundar sua própria sigla após sucessivos conflitos com seus antigos correligionários devido a posições heterodoxas. Conservadores em apuros Vista geral da praça central histórica de Quedlinburg, Saxônia-Anhalt, em 4 de agosto de 2026 Lisi Niesner/Reuters A AfD pretende, após a eleição estadual na Saxônia-Anhalt, governar sozinha e nomear o governador. Isso depende, entre outros fatores, de quantos partidos conseguirão entrar no Parlamento e de como eles votarão na eleição para governador. Atualmente, o governo da Saxônia-Anhalt é comandado pelo conservador Sven Schulze, da União Democrata Cristã (CDU), mesmo partido que hoje lidera a coalizão no governo federal do chanceler federal Friedrich Merz. No estado, a CDU tem pontuado nas pesquisas entre 22% e 24% das intenções de voto. Já potenciais parceiros de governo dos conservadores — a depender do cenário, social-democratas e ambientalistas — somam entre 6% e 12%. A situação é especialmente incômoda para os conservadores porque a CDU também rejeita categoricamente qualquer aliança com A Esquerda, que aparece entre 13% e 14% da preferência do eleitorado. Outro potencial aliado, os liberais do FDP, têm poucas chances de obter o mínimo necessário de 5% dos votos para vencer a cláusula de barreira e garantir presença no Parlamento. O líder do partido A Esquerda, Luigi Pantisano, deu a entender que a legenda estaria disposta a apoiar a CDU, se necessário, para manter a AfD longe do poder — mesmo que se mantenha na oposição aos conservadores. O modelo não seria inédito. Também na Turíngia e na Saxônia, outros dois estados do leste, a CDU coopera ou consulta A Esquerda quando precisa de apoio no Parlamento para garantir alguma votação importante. Mas o governador Schulze tem se esquivado do assunto, diante do racha interno no partido em relação à esquerda, tolerada por uma parte e rejeitada por outra, que teme perder ainda mais eleitores para a AfD. Tática para conseguir mais votos? Agora no g1 A própria presença do BSW no Parlamento estadual ainda é uma incógnita, já que o partido tem oscilado nas intenções de voto entre 4% e 5%, no limite da cláusula de barreira. Ou seja: na prática, a depender do resultado nas urnas, pode ser que o BSW sequer entre no Parlamento estadual e não tenha, portanto, nenhum poder de impor um governo da AfD aos demais partidos. Diante da incerteza nas pesquisas, o discurso de Wagenknecht pode ser justamente uma tentativa de angariar a simpatia do eleitorado e garantir a sobrevivência política do BSW. Isso porque, embora à exceção do BSW os demais partidos rejeitem categoricamente uma aliança com a AfD, praticamente dois em cada três eleitores (69%) no Leste da Alemanha discordavam dessa postura segundo uma pesquisa infratest-dimap no início de agosto. Para a maioria do eleitorado, a aliança é desejável ou, no mínimo, não deveria ser descartada sem analisar caso a caso. Outra pesquisa recente do YouGov aponta que 47% dos alemães do leste defendem a participação da AfD no governo caso a sigla seja a mais votada, mas não consiga maioria própria. Nesse cenário, só 29% apoiam que os demais partidos formem juntos um governo estadual sem a AfD, enquanto 11% defendem novas eleições e 13% disseram não ter opinião formada sobre o assunto. "É totalmente antidemocrático excluir permanentemente um partido que é escolhido por cerca de 40% dos eleitores", disse Wagenknecht ao Bild, referindo-se à AfD. O BSW — inicialmente fundado sob o nome Aliança Sahra Wagenknecht e majoritariamente baseado na projeção da própria Wagenknecht como figura pública — tem tentado a duras penas se manter relevante no cenário político. O partido conseguiu conquistar bancadas nos estados orientais da Saxônia e Turíngia, em 2024, e em Brandemburgo, em 2025. Nestes últimos dois, integra coalizões de governo. Também obteve assentos no Parlamento Europeu. Mas a sigla perdeu força na eleição federal antecipada de fevereiro de 2025, convocada após o desmoronamento do governo do então chanceler federal e social-democrata Olaf Scholz. O BSW sofreu com falta de dinheiro para a campanha e com a própria desorganização, além de ter sido preterido pelos rivais do A Esquerda, que recuperaram terreno graças a vídeos virais e sua oposição aberta contra a AfD. Com isso, o BSW segue sendo uma legenda nanica, sem representação no Bundestag, o Parlamento Federal. Aproximação entre AfD e BSW Especialistas afirmam que retórica negativa da AfD pode deixar seus eleitores ainda mais infelizes. REUTERS/Lisi Niesner O candidato a governador da AfD, Ulrich Siegmund, diz não querer assumir o governo da Saxônia-Anhalt por maioria simples, como propõe Wagenknecht. "O que eu ganharia sendo um governador sem maioria no Parlamento? Preciso de uma equipe estável por cinco anos, na qual este estado possa confiar", disse ao jornal Welt na terça-feira (11). Não está claro se Siegmund concorreria à eleição para governador no Parlamento estadual sem ter maioria própria, já que, nesse caso, dependeria permanentemente do BSW. Ao apresentar suas propostas em temas como educação, cuidados de idosos e doentes, energia, segurança interna, mídia e liberdade de expressão, o BSW frisou que faz uma "oferta a todos os outros partidos", incluindo a AfD, sugerindo que todos poderiam chegar a acordos caso a caso. Wagenknecht tem repetido publicamente em diversas ocasiões ser contra a exclusão da AfD de governos, e fez acenos à sigla também no estado da Turíngia, onde o BSW é parceiro júnior dos social-democratas e conservadores em um instável governo sem maioria no Parlamento. Ali, o chefe local da AfD, Björn Höcke, que também é considerado um extremista de direita pelas autoridades alemãs, tem cortejado a líder populista de esquerda e ofereceu a ela recentemente o apoio de seu partido para torná-la governadora do estado. "Minha bancada e eu estamos prontos para abrir o caminho para a senhora", disse ele na quinta-feira (13). "Vamos fazer história e acabar juntos com o cordão sanitário [dos demais partidos que isolam a AfD] na Turíngia — não em algum momento depois da eleição na Saxônia-Anhalt, e sim agora mesmo." Wagenknecht dispensou a oferta — de todo modo inútil, já que ela não tem apoio unânime de seu próprio partido na Turíngia. Embora o BSW tenha sido fundado baseado em seu capital político, ela já não preside mais a sigla desde o final de 2025, após o fiasco nas eleições federais e divisões internas. "A Turíngia precisa de um novo chefe de governo com credibilidade e que ponha fim à tolice do cordão sanitário", respondeu Wagenknecht em um vídeo publicado no X neste domingo (16), dirigindo-se a Höcke. "Nós deveríamos falar sobre a minha proposta de um governador suprapartidário, que você aprova, e por que essa seria uma boa solução também para a Saxônia-Anhalt." VÍDEOS: agora no g1 Agora no g1
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August 17, 2026 at 9:31 PM
Como ex-comunista pode fazer Alemanha ter 1º governador de ultradireita após a 2ª Guerra Mundial
G1 / Globo