As propostas dos candidatos a presidente para o Nordeste Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Flávio Bolsonaro (PL) são os candidatos à Presidência da República que têm maior número de propostas específicas para o Nordeste. Levantamento do g1 com base nos planos de governo dos presidenciáveis mostra que eles dedicam um capítulo - e de três a cinco páginas - dos programas de governo a diagnósticos e promessas para a região, o Semiárido ou às políticas de desenvolvimento regional. O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dedica um capítulo às propostas de desenvolvimento regional, no qual contempla o Nordeste, além de incluir a região em outros trechos do plano, por meio de políticas nacionais em áreas como infraestrutura, conectividade e segurança hídrica. Candidatos como Samara Martins (UP), Pablo Marçal (PRTB) e Clariana Barão (DC) apresentam medidas mais pontuais, relacionadas à proteção ambiental ou, sem mencionar o Nordeste, ao desenvolvimento regional e ao combate à desigualdade regional. Já Edmilson Costa (PCB) fala apenas de "regiões menos assistidas". Em nota, Samara Martins disse que a meta é que a região Nordeste possa se tornar um polo de produção de ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, de produção de alimentos. Marçal, Clariana e Edmilson não responderam ao contato da reportagem. 🔎Pablo Marçal (PRTB) registrou a candidatura no último dia do prazo, em 15 de agosto, embora esteja inelegível. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda vai decidir se ele pode ou não concorrer. Entre as propostas apresentadas pelos candidatos nos programas registrados no Tribunal Superior Eleitoral estão a instalação de novos data centers, ampliação do 5G, novas ferrovias, industrialização e valorização da Caatinga. Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema Globo Romeu Zema (Novo) é o único entre os candidatos que pontuam nas pesquisas eleitorais que não faz qualquer menção ao Nordeste. A expressão "desenvolvimento regional" só aparece em seu programa de governo associada a políticas na área de cultura. Os candidatos Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata) não citam Nordeste nem falam de desenvolvimento regional em seus planos de governo. Rui Costa Pimenta afirmou em nota que o programa do PCO se aplica integralmente ao Nordeste, porque a região não é tratada como um problema administrativo separado do resto do país. Zema, Hertz e Gassi foram procurados, mas não responderam ao pedido de informações da reportagem. Nordeste como região estratégica Segundo a economista e socióloga Tânia Bacelar, especialista em desenvolvimento regional, o Nordeste precisa ser contemplado nos programas de governo tanto com políticas específicas para a região quanto com prioridade em propostas consideradas nacionais. "Uma política de apoio à transformação da base produtiva do amplo semiárido é essencial, porque a estrutura produtiva que ali imperou, por séculos, ruiu. A crise climática, por seu lado, traz o desafio de barrar a desertificação e recuperar áreas degradadas, e a oportunidade de atuar no mercado de carbono", sugere a especialista. Para o cientista político Arthur Leandro, professor de Políticas Públicas da Universidade Federal de Pernambuco, o peso dado ao Nordeste nos programas de governo segue uma tendência dos últimos pleitos, na qual os candidatos competitivos tratam a região como uma área estratégica para o desenvolvimento do país. Ele também observa uma estratégia de cunho eleitoral. Pesquisas de intenção de voto dos institutos Quaest e Datafolha mostram que Lula venceria em todos os estados do Nordeste, seguindo a tendência das eleições anteriores. "A região continua sendo muito importante para Lula. Nesse contexto, propostas específicas de outros candidatos também funcionam como sinal político de atenção ao eleitor nordestino", destacou o cientista político. Veja as propostas dos candidatos Ronaldo Caiado apresenta a maior quantidade de propostas específicas para o Nordeste: são quatorze propostas. O nome da região aparece nove vezes no programa de governo e a expressão "desenvolvimento regional", sete. O capítulo “Política para o Nordeste: desenvolvimento, água e oportunidades” tem três páginas. Em nota, Caiado disse que preparou um projeto de governo para criar o Pacto Nordeste 2030, por meio de parcerias com governadores, prefeitos, setor produtivo e instituições locais. Propostas de Ronaldo Caiado para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 Com nove propostas para o Nordeste, o programa de Augusto Cury tem o capítulo “Brasil Oásis: Revolução no Semiárido”, que abrange o Nordeste e também o Norte de Minas Gerais. São cinco páginas. A palavra "Nordeste" aparece dez vezes e "desenvolvimento regional", cinco. Propostas de Augusto Cury para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 No capítulo “O Nordeste é Solução”, Renan Santos concentra suas medidas na industrialização e na criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). São três páginas e oito propostas. A palavra "Nordeste" é mencionada 11 vezes no programa, mas a expressão "desenvolvimento regional" não aparece. Propostas de Renan Santos para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 Flávio Bolsonaro traz sete propostas e trata do Nordeste em quatro páginas, no capítulo "Desenvolvimento regional: reduzir a distância entre as regiões". O programa menciona a palavra "Nordeste" 11 vezes e "desenvolvimento regional", uma vez. Propostas de Flávio Bolsonaro para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 Já Lula tem seis propostas relacionadas ao Nordeste ao longo de quatro páginas, tanto no capítulo "Desenvolvimento regional", quanto em outros trechos do documento que incluem a região em uma perspectiva de política nacional. O programa menciona "Nordeste" três vezes e "desenvolvimento regional", sete. Propostas de Lula para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 Samara Martins (UP) tem apenas uma proposta diretamente associada ao Nordeste, de proteção da Caatinga. O nome da região é citado uma vez e não há menção a "desenvolvimento regional". Proposta de Samara Martins para o Nordeste. Kayan Albertin/Arte g1 Pablo Marçal (PRTB) e Romeu Zema só mencionam brevemente o termo "desenvolvimento regional", enquanto os demais cinco candidatos não citam o termo, nem o nome da região. Pablo Marçal e Romeu Zema têm proposta de desenvolvimento regional. Kayan Albertin/Arte g1 Candidatos propõem medidas pontuais ou não citam a região. Kayan Albertin / Arte g1 Para o cientista político Arthur Leandro, ter mais páginas no programa, ou um capítulo específico, não significa, por si só, apresentar uma política regional melhor ou mais factível. "O principal critério de comparação é ver se as propostas têm expectativa de financiamento, condições de execução, coordenação entre União, estados e municípios e capacidade de gerar emprego, renda e ganhos duradouros para a população local", disse o especialista. Mais data centers no Nordeste A atração de data centers aparece nas propostas de Renan Santos, Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro para o Nordeste. Embora com desenhos diferentes, os três associam esses empreendimentos às vantagens econômicas e energéticas da região. Caiado inclui a medida dentro do capítulo específico sobre o Nordeste. A proposta combina expansão da energia renovável com industrialização e emprego local e prevê atrair data centers eficientes, além de outras atividades intensivas em energia limpa. Flávio Bolsonaro também associa diretamente os data centers à disponibilidade de energia solar e eólica, no capítulo sobre desenvolvimento regional. O plano pretende usar a oferta de energia limpa e competitiva para transformar o Nordeste em polo tecnológico e atrair data centers para a região. Renan Santos propõe fazer do Brasil "o maior exportador de inferência computacional do hemisfério ocidental, transformando o Nordeste, em especial, na Arábia Saudita do Brasil". Lula também fala em fomentar a cadeia nacional de data centers, mas a proposta está no capítulo sobre "economia digital", e não é feita uma relação direta com a região. Políticas nacionais para Sul, Sudeste e Centro-Oeste De modo geral, Nordeste e Norte/Amazônia são apresentados como territórios nos quais é necessário corrigir desigualdades ou destravar potencial econômico. Segundo a economista Tânia Bacelar, o Brasil precisa construir políticas implícitas e explícitas para essas regiões. As implícitas são as que têm abrangência nacional, mas dialogam com as diferenças regionais. Um exemplo é a política de ampliação da oferta de ensino superior, que foi maior para o Nordeste. Já as políticas explícitas se dirigem apenas a regiões selecionadas. Um exemplo são os Fundos Regionais para o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, definidos pela Constituinte de 1988. "São necessárias propostas que considerem a heterogeneidade regional do país em todas as políticas macroeconômicas e setoriais a serem implementadas, ao lado de políticas regionais explicitamente direcionadas para o Nordeste e Norte", defende a especialista. O Sul e o Sudeste não recebem capítulos próprios nos programas, mas isso não significa que essas regiões receberiam menos investimentos de um eventual futuro governo, pois as propostas aparecem como políticas nacionais de indústria, infraestrutura, tecnologia, mineração, mobilidade ou energia, entre outras. Já o Centro-Oeste é associado com frequência ao agronegócio e a políticas de ferrovias, corredores de exportação, armazenagem, irrigação e logística. Para Bacelar, a região abriga uma base produtiva moderna e dinâmica, prescindindo de tratamento especial atualmente. O que disseram os candidatos O g1 procurou todos os 13 candidatos a presidente para que comentassem as propostas deles para o Nordeste. Veja o que disseram aquelas que responderam. Ronaldo Caiado (PSD) O Nordeste precisa de políticas que permitam explorar todo o potencial econômico da região. O povo nordestino convive há décadas com os efeitos da seca e com uma visão equivocada de que a caatinga é sinônimo de uma terra improdutiva. Essa não é mais a realidade. O Nordeste tem capacidade de produzir, empreender e gerar riqueza. O desafio é ampliar essas vocações econômicas e, principalmente, fazer essa riqueza permanecer na região. A região desponta como líder na geração de energia solar e eólica do país e tem grande potencial no agronegócio, na indústria, na tecnologia e no turismo. O que precisamos é transformar essas vantagens em emprego e renda para o nordestino. Também sabemos que desenvolvimento não acontece sem enfrentar as demandas sociais e os problemas históricos do Nordeste. Água, infraestrutura, saneamento e logística são prioridades. E precisamos olhar com atenção especial para a segurança. O avanço das facções e o domínio territorial do crime organizado não podem ser naturalizados. É preciso recuperar territórios, proteger a população e garantir segurança para que famílias, trabalhadores e empreendedores tenham liberdade para viver, trabalhar e investir. Com isso em mente, preparamos um projeto de governo que busca construir parcerias com governadores, prefeitos, setor produtivo e instituições locais para criar o Pacto Nordeste 2030, com projetos estruturantes e metas claras. Vamos fortalecer o BNB, o FNE e a Sudene, direcionando recursos para quem mais precisa e para iniciativas capazes de aumentar a produtividade. Também vamos investir na educação e na formação profissional dos jovens, conectando escolas, institutos federais, universidades e empresas às vocações de cada território, para preparar o nordestino para os empregos do futuro e garantir que as oportunidades de desenvolvimento sejam geradas na própria região. Samara Martins (UP) Na avaliação de nosso partido, só é possível desenvolver as regiões do Brasil a favor de quem realmente precisa, que são a classe trabalhadora e o povo, se o poder político e econômico servir aos interesses destes e não à classe rica e capitalista. Partindo desse princípio, o programa socialista da UP propõe medidas nacionais e estruturais, com o objetivo de desenvolver a melhora nas condições de vida de todo o povo trabalhador brasileiro, que é a imensa maioria do país. É uma lógica inversa ao que acontece hoje, em que os recursos do orçamento público são direcionados, em sua maioria, aos banqueiros e burgueses. Assim, ao fazer essa inversão na lógica do investimento público, os trabalhadores das regiões que historicamente recebem menos investimentos serão priorizados. E isso vale também para as regiões que historicamente sempre foram secundarisadas e investimento e infraestrutura. Um exemplo é a política de reforma agrária. A região Nordeste é uma das que mais sofreu com a concentração de terras no nosso país, que vem desde a invasão portuguesa e nunca foi revertida. Usineiros e latifundiários (hoje pomposamente chamados de agronegócio) tomaram posse de enormes quantidades de terra e enriquecem em cima dessa desigualdade. Ao desenvolver uma profunda política de reforma agrária na região, o nosso programa irá beneficiar milhões de trabalhadores do campo e camponeses nordestinos. Vamos priorizar os investimentos na agricultura camponesa (chamada de familiar), acabar com a danosa prática da monocultura e criar condições para uma diminuição radical dos preços dos alimentos. Isso será possível porque a produção de alimentos terá como prioridade o abastecimento do nosso povo, e não as exportações. Outra medida fundamental para o desenvolvimento da região é o contínuo investimento que garanta o livre acesso à Educação. Com a suspensão e auditoria do pagamento da Dívida Pública, que drena o orçamento para o bolso de banqueiros, será possível garantir a construção de universidades, escolas técnicas e de ensino fundamental e médio. Além disso, vamos trabalhar para garantir políticas de permanência para todos os estudantes que necessitem. Somamos a isso, nos primeiros 100 dias de governo, a implementação de uma política de frentes emergenciais de trabalho, para gerar milhões de empregos, a partir de obras para melhoria da infraestrutura dos estados, como saneamento básico, construção e manutenção de postos de saúde, escolas, universidades. Nossa meta é que a região Nordeste possa se tornar um polo de produção de ciência e tecnologia e ao mesmo tempo de produção de alimentos. Permitir condições para se reafirmar como um dos principais polos industriais do país, com mão de obra qualificada garantida com o orçamento público e ao mesmo tempo produtor e fornecedor de alimentos de qualidade para todos país. Rui Costa Pimenta (PCO) Não procede a afirmação de que faltam propostas para a região. O programa do PCO se aplica integralmente ao Nordeste. Ele não aparece ali como capítulo à parte porque não tratamos o Nordeste como um problema administrativo separado do resto do País. Os partidos da burguesia apresentam a cada eleição um pacote regional: incentivo fiscal, obra hídrica, polo industrial, transferência de renda. Fazem isso desde a criação da Sudene, em 1959, e a estrutura de propriedade da terra no Nordeste segue intocada. A miséria da região é culpa do latifúndio, dos grupos que controlam a água e o crédito e do capital estrangeiro instalado nos portos, na energia e no agronegócio exportador, que se beneficiam diretamente dessa situação. Nenhum plano regional apresentado nos últimos 70 anos tocou nesses interesses, e é por isso que todos fracassaram. As medidas que defendemos para o Nordeste são as mesmas que apresentamos ao conjunto dos trabalhadores brasileiros: ● Expropriação dos latifúndios, sem indenização, e entrega da terra a quem trabalha nela; ● Estatização dos bancos e fim do pagamento da dívida pública, que consome o dinheiro que falta para água, escola e hospital; ● Jornada de 6 horas por dia e 5 dias por semana, com fim de semana livre, sem redução de salário; ● Fim do Senado, câmara que serve de garantia às oligarquias que dominam os estados nordestinos; ● Autodemarcação das terras dos índios; ● Rompimento com o imperialismo e controle nacional sobre energia, portos e recursos hídricos. O PCO não disputa a eleição para administrar o Estado como ele está. Disputamos para apresentar esse programa aos trabalhadores e organizar a luta por ele.