Donald Trump e Lula ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP via Getty Images/Via BBC A tarifa de 25% contra produtos brasileiros, anunciada pelo governo dos Estados Unidos na quarta-feira (15/07), deve ter impacto restrito diante da extensa lista de itens isentos divulgada, afirma a economista e pesquisadora do PIIE (Instituto Peterson de Economia Internacional, nos EUA), Monica de Bolle. Ainda segundo a especialista brasileira, o cenário revela os limites do protecionismo e da margem de manobra de Donald Trump no mundo globalizado de hoje, que são muito menores do que o presidente americano faz parecer em suas ameaças. "Apesar de aparentemente não quererem mais isso, os Estados Unidos são uma economia muito integrada com o resto do mundo", disse De Bolle em entrevista à BBC News Brasil. "Por essa razão, o leverage [termo para alavancagem, usado em referência a poder ou influência] que os Estados Unidos tem é muito menor na prática do que na retórica." De Bolle afirma ainda que não há lógica econômica clara por trás das decisões tarifárias de Trump e classificou a medida contra o Brasil como "uma ação coercitiva política". A aplicação das tarifas contra o Brasil foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) após fim da investigação sobre práticas comerciais brasileiras consideradas injustas conduzida pelo órgão. Ela entrará em vigor em 22 de julho. Caso o novo tarifaço passe a valer, o Brasil passará a ser o país que mais viu aumento de alíquotas americanas desde a volta de Trump ao poder. Segundo o representante americano de comércio, Jamieson Greer, a medida busca proteger os interesses econômicos dos EUA e é necessária "para enfrentar práticas comerciais desleais e garantir que trabalhadores e empresas americanas possam competir em condições justas." Ele afirmou ainda que as negociações entre os dois países ao longo do último ano não resolveram as divergências, mas que Washington continua aberto a novas conversas com Brasília. Os EUA também divulgaram nesta quarta a lista atualizada de produtos que não vão enfrentar as tarifas. São mais de 2,2 mil itens, entre eles carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves. "Com essa lista de exceções, fica muito claro os limites que os Estados Unidos tem para aplicar esse tipo de medida protecionista com a mesma envergadura que eles anunciaram", diz a economista Monica de Bolle divulgação via BBC De acordo com Monica De Bolle, diante das dificuldades que o governo brasileiro vem enfrentando para negociar com os EUA, é provável que as conversas de agora em diante avancem mais em nível privado, entre empresas e setores específicos. "É uma balcanização do comércio, que se tornou inevitável", diz. Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada, disse que o dia 15 de julho "passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável". Ainda de acordo com a nota, o Brasil iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional e levará o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC). Para De Bolle, uma ação retaliatória poderia abrir espaço para uma guerra com comercial com os Estados Unidos, algo que "não seria bom para ninguém". "Eu não consigo imaginar como é que os Estados Unidos responderiam [a uma retaliação], mas imagino que responderiam com força de volta, embora o raio de ação seja limitado, como a gente já viu na própria lista de isenções", diz. Por outro lado, diz a economista, o governo brasileiro poderia optar por uma ação retaliatória limitada, apenas para sinalizar sua oposição e marcar posição, algo que teria um impacto bem menor. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Monica De Bolle à BBC News Brasil. BBC News Brasil - Há coerência econômica nas tarifas anunciadas? Até que ponto os argumentos apresentados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos têm fundamento econômico ou refletem uma disputa política? Monica de Bolle - Não tem, é uma clara disputa política. Isso ficou muito evidente com a manifestação do secretário de estado estado do Marco Rubio no X imediatamente após o anúncio acusando o governo Lula como responsável pelas tarifas – o que não faz nenhum sentido e deixa evidente a conotação política dessa medida. Esse é o primeiro caso de uso da sessão 301 desde que a Suprema Corte em fevereiro retirou as tarifas impostas por meio do IEEPA [Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional] e não permitiu que o governo, portanto, impusesse tarifas da maneira como vinha fazendo. O Brasil é uma espécie de 'test case' [caso de teste] para entender se essas outras vias que o governo tem usado para reimpor ou reinstituir as tarifas que estavam em vigor antes dessa ação da Suprema Corte de fato funcionam, além de ser um teste do próprio governo Trump em relação ao seu poder de barganha. BBC News Brasil - Os EUA incluíram na lista de exceções à tarifa alguns importantes itens da pauta exportadora brasileira para o mercado americano, como carne bovina e outros produtos agropecuários. Diante disso, qual tende a ser o impacto econômico efetivo da tarifa? De Bolle - As isenções são a parte mais reveladora desse anúncio, mais do que a tarifa em si. Pelas minhas contas, cerca de 65%, senão mais, das exportações do Brasil para os Estados Unidos ficarão completamente isentas. Ou seja, a tarifa de 25% se aplica apenas a um terço dos bens exportados. Além disso, já havia uma lista de isenções publicada no início de junho, e novos itens foram acrescentados agora. Tudo isso é muito revelador dos limites dessa ação norte-americana. Apesar de aparentemente não quererem mais isso, os Estados Unidos são uma economia muito integrada com o resto do mundo. Muitas exportações brasileiras são críticas para a economia americana e qualquer ação tarifária teria repercussões diretas sobre não só o consumidor americano, mas empresas locais também. Por essa razão, o leverage [termo para alavancagem, usado em referência a poder ou influência] que os Estados Unidos tem é muito menor na prática do que na retórica. Os itens realmente de peso, como café, suco de laranja, carne e outros produtos agrícolas, mas também grandes itens manufaturados como aviões e componentes, ficaram de fora. Até o pig iron [ferro-gusa, obtido com a redução do minério de ferro em altos-fornos] foi excluído, porque o Brasil representa mais de 50% do consumo norte-americano desse metal. Também não aconteceu nada especificamente relacionado ao Pix, que havia sido mencionado na investigação. Com essa lista de exceções, fica muito claro os limites que os Estados Unidos tem para aplicar esse tipo de medida protecionista com a mesma envergadura que eles anunciaram. BBC News Brasil - Podemos esperar um impacto limitado também no dia a dia das pessoas? De Bolle - Sim, mais ou menos na linha do que já havia acontecido no ano passado, quando houve aquela imposição de tarifas de 50% que depois caíram para 40%. No fim das contas, uma porção de itens não tiveram tarifas aplicadas sobre eles e não houve grandes efeitos sobre a economia brasileira. E o USTR anunciou que as negociações continuam em curso, então pode ser que essa lista de isenção aumente ainda mais ao longo dos próximos meses. É um impacto, mas é um impacto relativamente circunscrito e que não deve ter grandes consequências. Até porque do ano passado para cá, o Brasil vem tentando diversificar ao máximo o destino das exportações, assim como outros países. Lógico, há uma dependência do mercado americano que não vai desaparecer, mas já está havendo uma espécie de desvio de comércio dos estados brasileiros para outros países, precisamente por conta dessa volatilidade protecionista dos Estados Unidos. O caso do Brasil ainda serve como um sinalizador para outros países que também estão sendo investigados sobre a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974. O caso brasileiro revela para esses países os limites do alcance do protecionismo norte-americano. Os EUA divulgaram a lista atualizada de produtos que não vão enfrentar as tarifas. São mais de 2,2 mil itens, entre eles carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves Dado Galdieri/Bloomberg via Getty Images/via BBC BBC News Brasil - O Brasil é o segundo país mais taxado pelos EUA, atrás apenas da China. Existe uma lógica econômica por trás disso? De Bolle - Não, porque a própria lógica econômica do Trump, que não é nem uma lógica econômica tão bem fundamentada assim, não deveria se aplicar ao Brasil. A ideia seria proteger os EUA daqueles países com quem eles têm déficit comercial muito elevado, mas os Estados Unidos não tem déficit comercial com o Brasil. O superávit americano em relação ao Brasil, inclusive, aumentou recentemente. E, por si só, essa já é uma lógica falha, porque ninguém faz medida de protecionismo por conta de déficit ou superavitário comercial. É uma maluquice. Os Estados Unidos também queriam que o Brasil abandonasse algumas relações tarifárias preferenciais com países como México e Índia – que são perfeitamente compatíveis com as cláusulas da Organização Mundial do Comércio – e passasse a ter certas relações preferenciais com os Estados Unidos, mas de uma forma que não é compatível nem com a nossa legislação comercial, nem com o fato de sermos membros da Aladi [Associação Latino-Americana de Integração] e do Mercosul. Então, o Brasil não tinha o que dar para os Estados Unidos em troca desse pedido. O único setor ou o único produto afetado por essas tarifas em que consigo ver alguma lógica comercial e econômica é o etanol. Essa ação tem muita cara de uma ação coercitiva política antes de qualquer outra coisa. Não há um aspecto econômico claro aqui. BBC News Brasil - As tarifas podem ter um impacto eleitoral no Brasil? De Bolle - Acho que sim. Como a gente sabe, política externa e política comercial tipicamente tem pouco efeito em eleições, mas com os Bolsonaros – Flávio e Eduardo – se posicionando desde o princípio como aliados do Trump, as visitas a Washington e à Casa Branca, as conversas todas em torno de assuntos diversos, como Pix, comércio, a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, [isso pode mudar]. Devemos ficar de olho e avaliar no mínimo com uma certa suspeição essa percepção de que o Flávio Bolsonaro é um sujeito muito próximo de Trump. Ainda que Flávio Bolsonaro se elegesse, os Estados Unidos não são um parceiro confiável nesse momento. As coisas têm mudado de um dia para o outro: uma hora o Trump faz um aceno positivo para um país e no dia seguinte vira inimigo de novo. Isso introduz muita incerteza e volatilidade em qualquer relação bilateral. O alinhamento do Flávio Bolsonaro com o governo Trump é um ônus político para a campanha dele, sem nenhuma dúvida. E a aplicação das tarifas, da forma como vieram, mesmo depois de uma solicitação do próprio Flávio Bolsonaro para que o anúncio fosse adiado e deixado para depois das eleições, só sublinha essa ideia. BBC News Brasil - O fato de a medida ter sido tomada com base na Seção 301 muda a margem de reação do Brasil? De Bolle - O que o governo brasileiro vem tentando fazer é negociar na medida do possível com um governo que é absolutamente irascível e que tem outros objetivos em mente que vão além dos econômicos, né? O Trump já deixou muito claro que a o objetivo dele é que América Latina seja um palco de influência para os Estados Unido. Toda a articulação em torno de política comercial tem a ver com essa pegada geopolítica de zona de influência dos Estados Unidos O Brasil tem atitudes técnicas que pode tomar contra essas medidas? Tem, mas o problema de fundo é um problema geopolítico mais abrangente e isso limita um pouco o raio de ação. BBC News Brasil - Uma eventual retaliação com base na lei de reciprocidade tende a fortalecer a posição brasileira ou pode agravar o conflito? De Bolle - O Brasil está em uma posição ingrata, porque é difícil sofrer um ataque como esse e não fazer absolutamente nada, né? O país estaria no seu direito de articular uma resposta, se julgar que esse é o melhor caminho. Mas, se de fato decidir por uma ação retaliatória, podemos entrar em um terreno de guerra comercial com os Estados Unidos, que não será bom para ninguém. Eu não consigo imaginar como é que os Estados Unidos responderiam [a uma retaliação], mas imagino que responderiam com força de volta, embora o raio de ação seja limitado, como a gente já viu na própria lista de isenções. Mas cria um ambiente de muita incerteza na relação bilateral que acaba prejudicando empresas tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Agora, isso também poderia resultar em nada, porque o Brasil pode decidir, por exemplo, fazer uma ação retaliatória relativamente limitada, apenas para sinalizar que não irá aceitar isso assim de braços cruzados. E aí continuaríamos mais ou menos na mesma situação que estamos agora, de desentendimentos entre os dois países, mas sem que que isso resulte em maiores consequências econômicas. BBC News Brasil - Para onde o Brasil pode correr para negociar nesse momento, tanto para tentar reverter as tarifas quanto para encontrar outros mercados que podem absorver os produtos afetados? De Bolle - O Brasil já está negociando com uma porção de países distintos. Temos o acordo União Europeia-Mercosul em andamento e conversas diversas ocorrendo com vários outros países, inclusive com Canadá e países asiáticos. E o quadro é favorável, porque muitos outros países também precisam diversificar seus parceiros para além dos Estados Unidos. Agora isso tudo toma tempo, né? Nada disso vai resultar em algo imediato. Já negociar com os EUA é mais difícil. Desde que essa ação começou no ano passado, o Brasil teve muitas dificuldades de entrar em contato com o pessoal do USTR e só conseguiu depois de um lobby muito intenso de empresas brasileiras com atuação nos Estados Unidos e empresas americanas com atuação no Brasil. E apesar disso tudo, a situação continua precária. Provavelmente, vamos continuar a ver essas negociações andarem menos no nível específico dos governos – onde elas deveriam ocorrer – e mais entre setores específicos com seus lobbies particulares. É uma balcanização do comércio, que se tornou inevitável. BBC News Brasil - A inflação americana desacelerou recentemente. Na sua visão, esse é um movimento duradouro? De Bolle - Não. Essa desaceleração da inflação aconteceu em grande parte por conta do cessar-fogo da guerra com o Irã. Agora, número 1, a guerra voltou. E número 2, o governo Trump está voltando a fazer as ações tarifárias que haviam sido temporariamente eliminadas pela ação da Suprema Corte. Creio que o inflação americana já deve voltar a subir com força nos próximos três meses com essas duas fontes de pressão inflacionária. E isso certamente terá efeito sobre a popularidade interna do Trump, até porque um dos motivos que levou o governo a assinar o memorando de entendimento com o Irã foi as pressões da base eleitoral diante do altíssimo custo de vida.
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July 16, 2026 at 8:12 PM
Qual o impacto do tarifaço de Trump no Brasil? 'Deve ser restrito' e mostra 'limites do protecionismo americano', diz economista
G1 Economia